Uma tarde com os Pérolas Negras em Xerém

Feriado de 7 de setembro, tarde ensolarada de fim de inverno e última rodada do primeiro turno da Série C do Campeonato Carioca de futebol. Estamos nos limites da Baixada Fluminense, em Xerém, distrito de Duque de Caxias que fica ao pé da Serra dos Órgãos já no início da subida que leva a Petrópolis. No Estádio Romário de Souza Faria, o Marrentão, observados pelas imponentes montanhas da Reserva do Tinguá, os Pérolas Negras precisam apenas de um empate contra o Teresópolis para terminar o turno na liderança do Grupo A, posição que se mantida ao fim do segundo turno garante acesso direto à Série B do ano que vem.

O caminho dos Pérolas Negras até aqui não é óbvio. Remonta a 2004, quando o Viva Rio foi convidado pelas Nações Unidas a ajudar na missão de paz no Haiti em função de sua experiência nas comunidades conflagradas do Rio de Janeiro. O Viva Rio foi ao Haiti para ficar. Atua há 13 anos no país com projetos sociais nas mais diversas áreas, a maioria ainda ativos. Inaugurada em 2011 após ter as obras interrompidas pelo terremoto que devastou o país em janeiro de 2010, a Academia Pérolas Negras é sem dúvidas o destaque do portfolio.

O principal objetivo por trás da criação da Academia é dar a jovens haitianos a chance de uma carreira no futebol. Em 2016 o Pérolas Negras foi convidado a jogar a Copa São Paulo de Futebol Júnior, principal torneio sub-20 do Brasil, e o Viva Rio estabeleceu uma nova sede para o projeto em Paty do Alferes, cidade serrana a 120 quilômetros do Rio de Janeiro.

Os jovens que se destacam em Porto Príncipe são convidados a vir ao Brasil, onde o Pérolas Negras se tornou um clube profissional para perseguir sua missão de revelar talentos. Dois haitianos que se destacaram na Copa São Paulo de 2017 assinaram contrato com o Goiás, e o acesso à Série B do Campeonato Carioca, disputado com uma equipe formada por atletas haitianos e brasileiros, é considerado um passo importante para angariar visibilidade e recursos para a expansão do projeto.

É por isso que Marcos Badday, gerente de futebol do Pérolas Negras, acompanha o jogo com preocupação. O que o incomoda é sobretudo o estado do gramado. A ideia da comissão técnica e da diretoria era realizar as partidas como mandante no Campo do Avelar, em Paty do Alferes, onde a equipe realiza parte dos seus treinamentos, mas obter todos os laudos requeridos vem se mostrando uma tarefa árdua. Enquanto a liberação não vem, o Pérolas já mandou seus jogos em Volta Redonda, em Petrópolis e agora em Xerém. O placar segue 0x0.

– Estamos tendo muita dificuldade. O gramado não está ajudando. Quando pudermos jogar em Avelar vamos colocar a bola no chão – afirma Badday.

Além da vantagem técnica, jogar perto de casa é também uma demanda da população local:

– Estamos sendo cobrados. As pessoas vêm e perguntam: quando vamos poder ver nosso time jogar? Em Avelar a cidade inteira vai prestigiar.

A presença da torcida, no entanto, não deixa a desejar. A Prefeitura de Paty do Alferes cedeu um ônibus para trazer os torcedores, que são em sua maioria atletas do sub-20 e familiares e amigos dos jogadores. Junto a funcionários do Viva Rio e simpatizantes, eles formam um público de cerca de 60 pessoas que supera em muito os 3 empolgados torcedores do Teresópolis no outro lado da arquibancada.

É o jogo com mais torcida até aqui, um justo reconhecimento a uma equipe que chegou à última rodada tendo conquistado 15 pontos de 18 possíveis. Badday, que deu sua própria contribuição para o bom público levando pela primeira vez na competição os filhos Luan e Diego, comemora:

– É o dia em que a torcida encontrou a equipe.

Sobre torcida dos Pérolas Negras é melhor conversar com Elcio Reis. Enfermeiro de uma unidade de saúde gerida pelo Viva Rio, ele vestiu a camisa e tomou para si a missão de criar uma torcida organizada para os Pérolas, que batizou de Torcida da Paz.

Elcio não apenas vai a todos os jogos e mobiliza familiares e companheiros de trabalho para acompanhá-lo como mandou confeccionar, com recursos próprios, diversas bandeiras com as cores da equipe, que fazem sua estreia nessa tarde de 7 de setembro em Xerém. Ele leva também um bumbo e uma corneta, que rapidamente vai parar nas mãos da ala mais ativa da torcida, formada por atletas do sub-20 que passam o jogo provocando os jogadores adversários.

– Esse projeto me motiva muito. Quero promover a união da torcida, fazer uma torcida de paz, ver as famílias voltarem a ir ao campo para prestigiar o time. Esse é o jogo mais cheio, foi também o mais divulgado, e agora temos que manter essa ênfase. O time vive uma fase boa, está de parabéns e com mais três vitórias vai chegar à Série B. É legal o jogo ser aqui na Baixada porque dá ao pessoal uma chance de acompanhar – afirma Elcio, que é natural de Belford Roxo.

A torcida acompanhava atenta, mas o volume só foi crescer lá pelos 30 minutos quando o goleiro adversário fez boa defesa após cabeçada forte do zagueiro Sargento. Até ali os Pérolas controlavam a partida, mas pouco ameaçavam o gol do Teresópolis. No embalo da galera, no entanto, a equipe aumentou a pressão e aos 34 conseguiu a vantagem: Adriano cobrou escanteio, Richardson dividiu com o zagueiro Markus no segundo pau e a bola foi morrer dentro do gol. Festa no campo, no banco e na arquibancada.

O Pérolas foi para o intervalo em vantagem após um primeiro tempo complicado. Num campo seco e com grama escassa ou até inexistente em alguns trechos, como nas pequenas áreas e na parte central, a equipe teve dificuldades para impor seu estilo. Adriano, destaque da competição, apareceu pouco.

O atacante mais ativo foi Richardson, que participou muito e conseguiu levar vantagem em algumas jogadas, e o melhor do time foi talvez o lateral haitiano Elison, que jogava bem à frente da torcida e empolgou o gerente de futebol Marcos Badday com chegadas à linha de fundo, lances de efeito e bom aproveitamento nos passes.

– Só quero sair daqui com esses 3 pontos – afirmou Badday no intervalo.

Já Rubem César Fernandes, diretor do Viva Rio, não estava satisfeito. Assistindo ao jogo ao lado de sua companheira, Cibele Dias, e do presidente do Viva Rio, Tião Santos, Rubem comentou no intervalo com o conhecimento futebolístico que o envolvimento intenso com os Pérolas Negras o fez desenvolver nos últimos anos:

– O campo é ruim, não ajuda. Temos um estilo de toque de bola, mas o campo pede chutão. Precisamos de um campo melhor.

Rubem mostrou estar por dentro também da tabela e dos adversários dos Pérolas:

– Ganhando hoje ficamos à frente do segundo colocado na pontuação. É importante abrir distância nas próximas rodadas, quando vamos enfrentar adversários que estão embaixo na classificação, porque mais à frente vamos ter jogos difíceis, como por exemplo contra o Campos, que está fazendo ótima campanha.

Mas os Pérolas não conseguiram criar muitas chances de gol no segundo tempo e acabaram sendo castigados no final. Aos 39 minutos o goleiro Jefferson, que faz excelente torneio, saiu mal após bola levantada na área e acabou deixando o gol vazio. Sargento salvou na primeira tentativa, mas Lenon pegou o rebote e colocou a bola no ângulo. Um gol chorado e muito comemorado pelo Teresópolis, que, segundo o técnico dos Pérolas, Rafael Novaes, mereceu o empate:

– Fizemos um gol de bola parada, criamos chances, mas no segundo tempo dormimos. O empate foi merecido. Do outro lado tem um trabalho e eles conseguiram empatar na vontade. Agora domingo tem outra batalha e serão oito finais no segundo turno. Não podemos esquecer que perdemos o primeiro jogo, depois nos reerguemos e conseguimos 4 vitórias em sequência e hoje o empate. Estamos enfrentando boas equipes. O trabalho continua.

O Pérolas Negras terminou o primeiro turno com 16 pontos na primeira colocação do Grupo A da Série C – o 7 de Abril tem a mesma pontuação mas perde no saldo de gols. No segundo turno as equipes do grupo A enfrentam as do Grupo B e, ao fim, o primeiro colocado de cada grupo garante acesso direto à Série B. O primeiro jogo já é no domingo, às 15h, como visitante contra o Riostrense no mesmo Marrentão.

Natural de Paty do Alferes, o centroavante Rafael Paty rodou o Brasil e atuou até na Coreia do Sul antes de, aos 36 anos, finalmente jogar na sua cidade natal. Ele é o artilheiro da equipe na competição com 4 gols e fez um balanço do torneio até aqui:

– Começamos a competição nem tão bem (derrota para o 7 de Abril) e terminamos nem tão bem, mas o balanço geral é positivo. Já jogamos aqui e ganhamos de 2×0, tinha chovido e o campo estava um pouco melhor, hoje infelizmente o gramado acabou igualando para o lado ruim. Nossa equipe tem muita qualidade e isso sobressai em gramados melhores. Mas não é desculpa.

Paty disse que a maratona de jogos vem sendo cansativa, com partidas em intervalos curtos e viagens longas, e que a partir de agora as coisas devem melhorar com jogos apenas aos fins de semana. Lembrou ainda que os próximos dois confrontos são contra equipes que não fazem boa campanha, o que permite sonhar com a construção de uma vantagem, e comemorou a liderança ao fim do primeiro turno:

– Simbolicamente campeão do turno. Valeu a pena, foi um turno bem legal, a gente veio numa crescente. Eu sempre sonhei em jogar na minha cidade, e chegar na metade do campeonato com o primeiro objetivo alcançado é especial para mim. É só ter a cabeça no lugar e trabalhar direito que as coisas vão acontecer.

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Confira a tabela do segundo turno e a classificação da Série C do Campeonato Carioca para ficar por dentro dos resultados e próximos compromissos dos Pérolas Negras.

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