Seminário discute passado e futuro do Viva Rio

Em meio à correria diária, o Viva Rio parou durante a segunda-feira 12 de setembro para refletir sobre sua atuação no seminário que inaugurou a Plataforma de Estudos da instituição, “que esperamos ser um exercício permanente”, acrescentou o diretor executivo Rubem César Fernandes, na abertura do evento, durante a primeira das quatro rodadas realizadas ao longo do dia.

O Viva Rio, segundo Rubem, nasceu como um movimento no rastro da Ação da Cidadania, nos anos 90. “Cedo encontramos o caminho dos projetos, como o Balcão de Empregos e a Fábrica da Esperança”, citou. Em um segundo momento, a instituição tornou-se um laboratório social. Em uma trajetória de altos e baixos, o baixo astral culminou com a derrota do referendo do desarmamento, em 2005, que votava a proibição de venda de armas à população civil.

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Rubem César Fernandes fez um histórico sobre a atuação do Viva Rio | Foto: paulo Barros

A pergunta era confusa e capciosa e não havia clareza do que sim ou não significavam. Com 75% dos votos, ganhou o não e a venda foi permitida. Após um período de resistência, a ONG passou a Organização Social (OS), especializada em Saúde, que trouxe um crescimento acelerado. “Hoje temos mais de oito mil funcionários que atuam em mais de 100 comunidades, em 13 municípios. Nos tornamos uma empresa social”, contabilizou. “Agora, o principal desafio é a consolidação deste processo. O fundamental para o futuro é a qualidade de nosso trabalho, um permanente exercício de pensamento”, completou.

Autor de estudos sobre o Viva Rio,  como O mágico de Oz e O herói serial e a sociedade pragmática, o cientista político Luiz Eduardo Soares lembrou que a história de sua geração é marcada pela luta da resistência contra a ditadura militar. “O socialismo real não tinha semelhança com o mundo de liberdades que nos atraía”, ponderou. Tanto assim, que só se deu conta de que deveria realizar festas diferentes para cada grupo de amigos, a saber, marxistas, pessoas que viviam na clandestinidade e artistas de teatro libertários. “Só me dei conta quando um amigo psiquiatra tentou curar outro amigo gay”, diverte-se.

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O cientista político Luiz Eduardo Soares estudou a violência na cidade | Foto: Paulo Barros

Para Soares, Rubem César foi o principal intelectual brasileiro que construiu conexões para viabilizar o encontro destes dois universos. “Ele foi exilado da ditadura militar de direita e teve de fugir da ditadura de esquerda na Polônia”, exemplificou. “É preciso falar uma nova linguagem e inventar novos problemas”, acrescentou.

Abraço à Candelária

No fim dos anos 80 Soares participou da criação de grupos de pesquisa pensando alternativas à violência no Iser. “A cidade do Rio de Janeiro exigia soluções objetivas, até que em 1993 chegamos ao fundo do poço, com as chacinas da Candelária e de Vigário Geral, em meio à hiperinflação. Em 17 de janeiro Rubem teve a idéia de fazer dois minutos de silêncio na cidade, ao meio dia. Chovia e, ainda assim, demos um abraço à Candelária. Foi extraordinário, verdadeiro milagre”, recorda-se.

O sociólogo Bernardo Sorj, que atuou no Viva Rio até o Referendo, classificou a instituição com um “laboratório de idéias, na defesa de grandes causas, como foi a questão do desarmamento”. Em função de seu posterior distanciamento, questionou: “queria entender como essa experiência tão singular se posiciona atualmente”. Esquivando-se de uma certa tendência ao personalismo atribuída a ele, Rubem César destacou: “A concepção do Viva Rio foi uma orgia, uma suruba de quase 40 pessoas”, disse, com senso de humor. “Nascemos em um momento romântico difícil de ser reinventado. Vivemos um outro tempo”, propôs.

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Para o sociólogo Bernardo Sorj, “o Viva Rio era um laboratório de ideias” | Foto: Paulo Barros

Na rodada seguinte, o antropólogo e professor do Museu Nacional, Federico Neiburg falou da experiência realizada pelo Viva Rio com o Haiti, a partir de 2004. “Foi uma situação nova para a instituição, que participou em peso da reestruturação daquele país com intervenções humanitárias para diminuir a violência”, resumiu, citando um conjunto de ações desenvolvidas, como o projeto de distribuição de água, para o qual foi fundamental a formulação de lideranças locais, que culminaram com a assinatura de acordos de paz. “A presença do Vira Rio mudou muito o Haiti”, avaliou, citando iniciativas ligadas ao esporte (futebol) e ao turismo.

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O antropólogo Federico Neiburg analisou a atuação do Viva Rio no Haiti | Foto: Paulo Barros

Tecnologias de ponta

Na terceira rodada de discussões, direcionada ao futuro da instituição, cinco componentes debateram sobre os diversos campos de atuação do Viva Rio, como saúde, educação e relações institucionais. Entre os questionamentos apresentados pelos participantes houve uma indagação em comum: como manter a originalidade do Viva Rio, construída ao longo de sua história, em um momento de revolução digital?

Para o coordenador de educação e inovação do Viva Rio, Francisco Araújo, a discussão traz à tona a importância de aliar o atual trabalho com a evolução tecnológica, para dar sequência à imagem que foi construída. “As tendências inovadoras, resultado deste avanço, nos permitem aplicar as tecnologias aos métodos de educação já existentes. Não queremos que as populações dos territórios sejam apenas consumidores daquilo que produzimos, mas que sejam produtores, que utilizem toda esta modernização”, avaliou. Francisco destacou ainda o trabalho realizado na Estação Futuro, no Espaço Criança Esperança, no Cantagalo, na zona Sul da cidade. A iniciativa criou um centro de educação e cultura digital, que permite o acesso dos jovens moradores de favelas a um processo individualizado de aprendizado e a tecnologias educacionais de ponta.

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Francisco Araújo lembra a importância de aliar o trabalho à evolução tecnológica| Vitor Madeira

Na área da saúde, um dos questionamentos lembrou a importância da representação construída nos territórios em que o Viva Rio atua. Stefânia Soares, assessora técnica em saúde, respondeu as dúvidas dos participantes e descreveu os desafios enfrentados pelos funcionários que atuam no campo da saúde, estejam eles diariamente em contato com a população, ou não. “A estreita relação entre os funcionários e os moradores mostra o potencial do nosso trabalho e a capacidade do nosso alcance. Nosso compromisso com a população está sempre em primeiro lugar e isso valoriza a nossa identidade”, pontuou Stefânia.

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Stefânia: “Nosso compromisso com a população está em primeiro lugar”| Foto: Vitor Madeira

Desafios do futuro

A última mesa do dia, mediada por Tião Santos, reuniu os conselheiros do Viva Rio Andres Cristian Nacht e Zelito Viana. Embora a expectativa fosse de uma síntese de tudo o que já fora apresentado, ninguém acreditava em posicionamentos ou ideias definitivas.  “Acho que vai ser uma missão quase impossível tentar fazer uma sistematização que traga uma conclusão. Talvez a ideia desta mesa não seja concluir, mas apontar caminhos”, observou Tião Santos.

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Para Tião Santos, o compromisso do seminário é apontar caminhos | Foto: Vitor Madeira

Sem sair do papel de conselheiro fundador do Viva Rio, o empresário Andres Cristian Nacht abordou duas questões importantes na organização: a originalidade da instituição e a preocupação em não deixar os valores se perderem conforme seu crescimento. Apesar de facilmente reconhecido, é difícil definir o que seria o DNA do Viva Rio. “Todo mundo fala, sente, sabe que existe essa originalidade: o jeito Viva Rio de fazer, força imensa que tem de ser trabalhada”, avaliou Nacht.

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Andres Cristian Nacht tentou definir qual é o DNA do Viva Rio | Foto: Vitor Madeira

Ele foi enfático ao analisar a dificuldade em manter a identidade em uma instituição formada por tantas pessoas diferentes e distantes entre si. “Este conceito de maior é muito atrativo. A gente adora ser referência. Mas é muito difícil ser grande, com essas oito mil pessoas, e manter esse jeito Viva Rio de fazer. Para preservá-lo, com grupos energizados, cheios de iniciativa, com os valores que todos tanto prezam, é preciso manter pequenas organizações, onde as pessoas se conheçam pelo nome. O tête-à-tête é melhor que a Internet, uma maneira insubstituível de se comunicar ”, completou.

Por sua vez, Zelito Viana, que se tornou conselheiro do Viva Rio após sentir a necessidade de praticar trabalhos voluntários, identificou duas características no Viva Rio que definem sua identidade e são seu diferencial: a capacidade de mobilizar pessoas e de dialogar, em qualquer situação. “O Viva Rio consegue trabalhar em diferentes zonas, em diferentes conflitos. Isso é um know-how que ninguém tem, um DNA que não pode ser perdido: a capacidade de mediar. Não havia muitas ideias pré-concebidas nas reuniões de que participei, as coisas nasciam conforme o diálogo, o que não costuma acontecer nas empresas”.

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Zelito: “Capacidade de diálogo e de mobilizar são diferenciais do Viva Rio” | Foto: Vitor Madeira

Rubem César fechou o debate lembrando do privilégio de trabalhar em ações que buscam efetivamente mudanças, independente do cenário político. “As grandes causas que defendemos estão no objetivo do nosso trabalho, temos a oportunidade de trabalhar em uma organização que lida com problemas da vida”.

 

(Texto: Celina Côrtes, Sávio Hermano e Vivian Guimarães|Fotos: Paulo Barros e Vitor Madeira)

 

 

 

 

 

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