Debates em favelas pautam Fórum sobre drogas

“Essa semana houve uma morte violenta na comunidade. Moradores, envolvidos ou não com o tráfico e policiais, são mortos constantemente, na frente de crianças ou de quem estiver na rua. Acham que por sermos da favela já nos acostumamos. Não é verdade, sempre dói”.

Com esse depoimento, Ana Barreto*, agente comunitária de saúde e moradora de Acari, exemplifica uma realidade sangrenta que envolve o tema das drogas nas favelas cariocas.

Para dar visibilidade a essa e outras opiniões, invisíveis quando as políticas públicas são formuladas, os encontros “Chega aí: vamos falar sobre drogas?” foram realizados nos meses de junho, julho e agosto em diferentes comunidades do Rio de Janeiro, levantando questões que servirão de pauta para a 5ª Reunião Fórum Permanente de Segurança Pública que será realizado na Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro – EMERJ, na próxima segunda-feira (24), das 09:30h às 18h. Além do diretor executivo do Viva Rio Rubem César Fernandes, participam do Seminário policiais, assistentes sociais, profissionais de saúde, juízes e desembargadores.

Durante os encontros, organizados pelo Núcleo de Drogas e Saúde Mental do Viva Rio, houve um esforço dos organizadores em deixar as pessoas livres para expor suas opiniões, sem julgamentos. Os facilitadores provocaram as discussões através de perguntas e mediaram a conversa.

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Daiana Albino e Cléo Moraes mediaram os debates. | Foto: Tamiris Barcellos

“Ouvimos pessoas que convivem de perto com o comércio ilegal dessas substâncias e com a política de repressão, construindo coletivamente saberes sobre a temática”, resumiu Daiana Albino, coordenadora da Rede de Articulação Comunitária do Viva Rio.

As comunidades visitadas em junho foram Maré (23) e Alemão (30). Em julho, foi a vez de Acari (07) e Rocinha (13) receberem a roda de conversa e em agosto, o encontro “Chega aí” foi realizado no Cantagalo (30).

Jovem de favela tem oportunidades?

Na Nave do Conhecimento do Complexo do Alemão, o que chamou a atenção foi a participação de crianças e adolescentes. Pedro Rocha*, estudante e morador do local, 14 anos, foi o primeiro a pedir a palavra. Segundo ele, é comum ver adolescentes que engravidam e saem de casa com problemas com a família, além de gente assumindo que prefere os filhos envolvidos com o tráfico do que passando fome. “Às vezes vejo crianças e adolescentes com armas na mão. Também tenho amigos da minha idade que já são usuários, se viciaram e não conseguem largar a droga”, lamentou.

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Muitos adolescentes participaram do debate no Alemão. | Foto: Tamiris Barcellos

Segundo outro morador do Alemão, Raphael Barbosa*, ele sabe onde a droga é vendida na comunidade, “mas os projetos da favela são a melhor forma de me manter saudável e fora do crime”, opinou. 

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Os moradores contaram suas histórias na Nave do Conhecimento. | Foto: Tamiris Barcellos

Já Marisa Santiago*, tutora do “Caminho melhor jovem”, evolvida com adolescentes que querem largar as drogas, acredita que a escola não está preparada para ouvir essa geração. “Mesmo com pouca idade, há jovens com potencial e boas habilidades de articulação e gestão no comércio de substâncias ilícitas, mas não encontram outra perspectiva na vida por não terem o ensino completo “, apontou.

 

No encontro da Vila Olímpica da Maré, o morador Fábio Andrade* disse acreditar que o problema do vício em drogas vai além da dependência da substância em si. “É motivado pela miséria, desemprego, falta de oportunidade e perspectiva dos jovens, e pela forma como cada um lida com as frustrações da vida”, avaliou.

 Guerra às drogas

Com apenas 8 anos, a pequena Laura Silva * participou da roda de conversa do Complexo do Alemão, onde lamentou a tristeza das mães da favela que perdem seus filhos ainda novos na guerra às drogas. “Minha tia perdeu o filho em junho, por conta de uma operação na favela”, denunciou. O menino, de 15anos, era envolvido com o tráfico.

Em Acari, a moradora Ana Barreto* afirmou ser a favor da legalização e contra a “liberação” das drogas, para que se possa ter um maior controle no comércio dessas substâncias. “Tenho um irmão envolvido com drogas e sempre que tem uma operação a gente pensa que pode ser a vez dele. Outro dia, tomei um susto porque o rapaz que morreu era muito parecido com ele, cheguei a confundir”, revelou Ana.

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Os participantes debateram a questão das drogas na Rocinha. | Foto: Amaury Alves

No encontro da Biblioteca Parque da Rocinha C4, Cláudio Napoleão, morador e articulador do Viva Rio no Cantagalo, acredita na relação entre a falta de oportunidade aos jovens e a atuação no tráfico de drogas. “Nunca me esqueço de um menino que vi crescer e entrou no tráfico aos 14. Insistia para ele sair e ele disse que sairia se eu arrumasse um emprego para ele. Não consegui. Na semana seguinte, ele foi morto em uma operação policial”, lastimou. Napoleão nasceu nos anos 60 e disse que das 100 crianças que cresceram brincando com ele na favela, apenas seis permanecem vivos. A maioria morreu vítima de tiros.
Estigmas do morador de favela

Cláudio Napoleão também lembrou da dificuldade em arranjar um trabalho quando percebiam, na entrevista, que sua rua ficava na favela. A partir de então, ele começou a dar o endereço de outros familiares para fugir do estigma de favelado e conseguir um emprego.

A tutora Lúcia Santiago*, que trabalha no Alemão mas não mora na favela, afirma que é na classe mais rica que há uma maior variedade de drogas e mais gente consumindo. “Enquanto os usuários de drogas na favela são chamados de traficantes, drogados ou ‘cracudos’, na zona Sul eles são ‘dependentes químicos’”, comparou.

Passado e presente das drogas

Presente ao debate em Acari, Jocelino Porto, 70 anos, afirmou que na comunidade onde mora, em Rocha Miranda, sempre houve comércio de drogas, “mas com o crescimento da favela também aumentou a repressão”. Para ele,  a polícia nunca vai conseguir dar um fim às substâncias ilícitas.

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Dona Márcia lamenta o extermínio da população da periferia. | Foto : Lucas Almeida

De acordo com a ativista social e moradora da Cruzada, Márcia Vasconcellos, 79 anos,  faltam políticas públicas eficientes, “que dêem à favela a mesma assistência destinada às zonas mais nobres da cidade. Em meio à política de repressão ao comércio ilegal das drogas, a matança dos jovens negros favelados é assustadora, são nossos meninos e meninas que estão morrendo”, denunciou.

Ela acredita que a informação circula cada vez mais entre crianças e adolescente com as novas tecnologias, e que é inútil fingir que drogas não existem ou achar que vão acabar: “Não dá para esconder, é preciso instruir essas crianças”, enfatizou Márcia, que é a favor da legalização como forma de criar normas para este tipo de comércio.

 Saúde e redução de danos

Na Maré, a agente comunitária de saúde Helena Oliveira, que vive no território, afirmou que dos seus seis filhos, apenas um teve envolvimento com drogas. Ele era viciado em crack e Helena chegou a buscá-lo debaixo da ponte. “Hoje, ele voltou para casa e conseguiu voltar a trabalhar, deixou o crack e faz uso moderado de maconha”, disse.

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A sala na Vila Olímpica na Maré sediou o primeiro “Chega aí”. | Foto: Paulo Barros

Presente ao encontro do Cantagalo, Dirceu Alves, que trabalha em Copacabana, destacou a grande concentração de moradores de rua nessa região. Além de atuar como agente redutor de danos e promover o elo entre o usuário e a equipe de saúde, orienta as pessoas a adotarem hábitos mais saudáveis, mesmo que ainda façam uso de substâncias entorpecentes.  “O foco do tratamento é oferecer qualidade de vida”, esclareceu.

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Dirceu Alves aposta na redução de danos como tratamento ao usuário. | Foto: Lucas Almeida

Lídia Di Fabrizio, voluntária do projeto “Terapia do Abraço”, que trabalha com usuários de crack no Jacarezinho e participou do evento no Cantagalo, disse acreditar “no toque e no amor como a melhor forma de tratar o usuário de drogas que se encontra em um nível avançado de vício.”

 A droga não nasce na favela

Em Acari, a aposentada Marina Costa disse acreditar que o conceito de droga é relativo e que há muita hipocrisia diante do tema: “O Estado diz que quem é usuário de drogas contribui para o tráfico, mas eles sabem que as grandes plantações de maconha não nascem na favela. E o agrotóxico, droga que vem causando cada vez mais câncer nas pessoas, é incentivado pelo governo”, alertou.

No Complexo do Alemão, o advogado criminalista e morador Maicon Barreto*,  acredita que é preciso discutir a formação do profissional militar que vai agir dentro da comunidade. Ele acha irrelevante o comércio de substâncias ilícitas na favela no processo do tráfico de drogas, “articulado por pessoas de ‘colarinho branco’, que buscam as drogas de jatinho e lucram de verdade com esse comércio”.  

O objetivo do seminário (24) é dar voz a questões da rotina dos moradores de favela, para que possam ser ouvidos e ajudem a pautar políticas públicas, formuladas por magistrados e intelectuais muitas vezes distantes dos problemas que envolvem o tema “drogas” na periferia.

*Os nomes foram modificados para evitar a exposição dos moradores

(Texto: Deborah Athila| Fotos: Tamiris Barcellos, Lucas Almeida, Paulo Barros, Amaury Alves)

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