“Existem novas leituras diante do estupro”, diz Ubiratan

Além da conclusão da pesquisa inédita encomendada pelo Datafolha ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), de que para uma grande parte da população a culpa  do estupro é da vítima, o conceito deste tipo de violência mudou, social e legalmente, conforme o coordenador de Segurança Humana do Viva Rio, o coronel Ubiratan Ângelo.

Veja íntegra da pesquisa no link http://www.forumseguranca.org.br/publicacao/apoliciaprecisafalarsobreestupro

A mudança legal diz respeito à percepção de que o estupro pode ocorrer com mulheres ou homens, nas relações homoafetivas, o que antes não era admitido. “Isto significa ser necessário o aumento da rede de proteção a essas pessoas”, observa o coronel.

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Relações homoafetivas também são alvo de estupro e requerem uma rede de proteção | Foto EBC

Já do ponto de vista social, segundo Ubiratan, existe um racha. “Os conservadores, de formação mais religiosa, entendem que a mulher deveria se comportar de maneira mais recatada, evitando vestimentas que acentuem sua beleza e provoquem a libido masculina.

“Por outro lado, há uma parte mais progressista da sociedade que entende como violência o não consentimento ou a ausência de consentimento, no caso de pessoas bêbadas ou drogadas, ou ainda a não aceitação a um pedido de parar o ato sexual”, avalia.

Para ele, qualquer ato que atente contra a liberdade sexual, com ou sem conjunção carnal, deve estar acompanhado de prazer. “E só existe prazer no mundo do consentimento. Ignorar a necessidade de consentimento é desprezar a dignidade humana, seja da mulher ou do homem”, completa.

O raciocínio, significa, de acordo com Ubiratan Ângelo, exigir a responsabilidade de cada cidadão na formulação de políticas públicas e a conscientização da sociedade não apenas do papel do estado, de prover a segurança preventiva e proativa, “como na formação de uma mentalidade social de que não existe a relação propriedade X objeto entre seres humanos”.

A pesquisa foi divulgada na abertura do 10º Encontro do FBSP, iniciado na quarta-feira (21), que será concluído nesta sexta-feira (23). De acordo com o estudo, o Brasil tem  quase 50 mil casos de estupro por ano e 33,3% da população acredita que a culpa e da vítima. Para 42% dos homens, o estupro acontece porque a mulher não se dá ao respeito e/ou usa roupas provocativas. Surpreende ainda mais o fato de 32% das mulheres concordarem com a afirmação.

O estudo revelou ainda que 65% dos brasileiros temem ser vítimas de violência sexual, medo que atinge 85% das brasileiras e chega a 87,5% no Norte e a 90% no Nordeste.

(Texto: Celina Côrtes | Fotos: Paulo Barros e EBC)

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