Viva Favela no Linux in Rio
Nesta sexta-feira, dia 3 de setembro, o editor de vídeos e correspondente comunitário do Viva Favela, Renato Oliveira, ministrará palestra no Linux in Rio, evento que busca promover o software livre no Rio de Janeiro.
 
  Programa de uso prático da língua inglesa
O Consulado Geral dos Estados Unidos vai lançar nesta quarta-feira, 18/08, às 15:30h, o programa de ensino de inglês UP with English: Uso Prático da Língua Inglesa, no Espaço Criança Esperança, no Cantagalo. Saiba mais.
 
 
 

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Nossas Marcas
Rubem César Fernandes - antropólogo e diretor executivo do Viva Rio - 02/07/2009

 

Betinho me liga com aquele jeito brincalhão provocador que era seu. O assunto, como de costume, é pesado: só que hoje, inícios de setembro de 1993, não fala de “fome”. Fala de “violência no Rio”. Walter Mattos Jr, Vice Presidente do jornal O Dia, havia ligado para ele propondo reação. Candelária, Vigário Geral, Arrastões - era demais. Walter pretendera levantar uma campanha em seu jornal, mas concluíra que o problema pedia reação mais forte, um movimento social, algo assim como a montante campanha contra a Fome que o Betinho encarnava. Walter ligou para ele. Poderia ter chamado um General, mas a intuição apontou para a Ação da Cidadania.

A conversa rende e Walter sugere um encontro para o qual tentaria levar seus colegas concorrentes, João Roberto Marinho, das Organizações Globo, e Kiko Brito, do Jornal do Brasil.  Novidade das boas, que Betinho curte em me contar -  “Já pensou a força desta conversa?”  Walter e Betinho despedem-se com a missão de reunir um grupo que se dispusesse a encarar a pergunta sobre o que fazer diante de tanta violência.  Dias depois, encontrávamos umas quarenta pessoas no Centro Comercial de Botafogo. Gente expressiva, vinda de cantos diversos da sociedade carioca. Diferente do costumeiro, a maioria ali não se conhecia. A dupla convocação misturou as listas. Tínhamos gente das elites, mas também dos movimentos sociais e lideranças populares. Todos mobilizados pelos efeitos perversos da violência, mas com histórias diversas para contar. Isto foi na primeira semana de setembro de 1993. A conversa deu vontade de quero mais. E assim, aos poucos, nos encontros subseqüentes, foi concebido o Viva Rio.

Dos fundadores resultou o Conselho Diretor, que guardou algumas características originais. Um grupo grande, talvez demais para um Conselho. Durante anos, foram 33 pessoas, que depois passaram a 23, que se reuniam todo mês, num almoço, para conversar sobre o acontecido e pensar próximos passos. Não é comum um Conselho tão grande que se reúna tão amiúde por tanto tempo. São sinais do interesse pela coisa.

Parte do segredo, marca de origem, está justamente na heterogeneidade.  Dirigentes da mídia e líderes sociais não se encontram todo dia. Presidentes de grandes empresas e de associações de favela não costumam comer junto. Personagens das Zonas Oeste, Norte e Sul da cidade raramente se cruzam. A reunião do Conselho oferece uma oportunidade de encontro entre pessoas expressivas dos extremos sociais. Em pequena escala, demonstra que a comunicação construtiva é possível, apesar das terríveis tensões que atravessam a cidade. Os almoços do Conselho sinalizam a sua missão, resumida na dupla mensagem da redução da violência e da integração social.  

Grandes campanhas: abusando da Comunicação

As ações e as imagens do Viva Rio refletiam na mídia e retornavam ao Conselho com força redobrada. A participação dos donos dos veículos fazia diferença, com certeza, mas não era só. No Reage Rio, em fins de 1995, chegamos a juntar um plenário de publicitários que se dispunham, voluntariamente, a trabalhar a opinião numa mesma direção e cada um a seu modo. Algo parecido aconteceu no Basta! Eu quero Paz,  já em escala nacional.

Mais tarde, na campanha pelo Estatuto do Desarmamento, em 2003, chegamos a ver a trama da novela das oito nas marchas de rua, entrelaçando fantasia e realidade na consciência coletiva brasileira. Não se pense, contudo, que basta ter o dono da mídia e o bom publicitário consigo para que a notícia aconteça. É preciso que o evento suporte o seu potencial comunicativo. O Viva Rio, desde os seus primeiros passos, trabalha com produção de eventos. No início, com a competência voluntária de gente como Péricles de Barros e Célia Menezes, e depois com os quadros próprios da casa.

Herdou de Betinho a arte das festas de protesto, como o Natal Sem Fome, as campanhas contra a Dengue (limpamos os trilhos do trem, da Central a Deodoro!), ou o abraço à Lagoa e à Praia de Ramos, que resultou no improvável Piscinão, aliás  também ele incorporado à fantasia da novela. Jeito carioca de fazer movimento, que teve sucesso por um bom período, mas que não é infalível, como bem se viu no episódio do Referendo sobre a venda de armas, em 2005.

Em contraponto à festividade do estilo, também desde o início, e por intenção expressa dos fundadores, o Viva Rio adotou uma postura pragmática frente à sua missão. Evitou definições doutrinárias e programas globais. Não se posicionou na política partidária ou em definições ideológicas.  Não teria como, dada a heterogeneidade de seu Conselho. Preferiu, pois, a postura da “resolução de problemas”, que melhor se ajusta a uma lógica operacional de projetos.

Laboratório de soluções

No pólo oposto dos eventos, o Viva Rio cresceu como uma organização que realiza projetos específicos, de longo prazo. Esta, então, é uma segunda marca de origem: a tensão interna entre o evento e o projeto, o carisma e a rotina, a visibilidade na grande imprensa e a presença continuada em ações locais. Já lá se vão quinze anos desta dinâmica, que acaba por constituir um modo de ser.

No nome e nos projetos, o Viva Rio mergulhou fundo na sociedade fluminense. A partir de 1996, o movimento fez uma imersão nas favelas, que não mais abandonou. Tendo nascido no lado “Maravilha” do Túnel Rebouças, seguiu as redes de cidadania que se alongam do outro lado. Dez anos mais tarde, em 2006, tocava projetos sociais em 1.024 localidades, distribuídas por 81 municípios.  Expandindo a rede de projetos, o Viva Rio ampliou também o número e o tipo de parceiros. Nos últimos anos, os números de parcerias operacionais, montadas em torno de projetos específicos, oscilaram ao redor de 1.000 entidades.

Pensou-se como se fora um laboratório onde certas idéias seriam testadas.  Identificado o problema, buscava-se uma solução e passava-se a aplicá-la numa experiência prática.  Foi assim com o Tele Curso 2000 presencial, mas também com o Micro Crédito Produtivo nas favelas (o Viva Cred) e a introdução de Centros de Acesso à Internet nas Favelas (as Estações Futuro). São três exemplos bem sucedidos do pioneirismo do Viva Rio – a aceleração escolar para jovens que abandonaram a escola tornou-se política pública, ainda aquém das necessidades, mas já posta a caminho com um rumo claro; o micro-crédito cresce com a adesão do sistema financeiro; o acesso à internet acontece de fato, com a multiplicação das Lan houses.

Em resumo, identificado o problema, propôs-se o Viva Rio a testar as soluções e abrir caminho para elas, de tal modo que, quando bem sucedidas, pudessem ganhar escala, seja pela intervenção das políticas públicas, seja pela ação do mercado. Feito este ciclo, pode dizer que o Viva Rio logrou cumprir um seu objetivo.

Foi com esta mesma estratégia que o Viva Rio lançou-se a trabalhar com as Polícias: identificando problemas específicos, sugerindo soluções, contribuindo para que fossem devidamente testadas e advogando, por fim, para que se tornassem parte das políticas de segurança do Estado.

Desde 2006 o número de ações locais se reduziu, fruto de uma avaliação interna que recomendou concentrar esforços quanto aos temas e às áreas de atuação.

Centro de pesquisas

Outra marca inicial duradoura foi a parceria com o ISER. Já em 1991, o ISER criara um setor de estudos sobre violência urbana, sob a coordenação de Luiz Eduardo Soares.  Pois então, no seu início, de dezembro 1993 a meados de 1995, o Viva Rio sequer possuía identidade jurídica. Era puro movimento. Do ISER, o espaço, o telefone, o telex (Internet mal chegava), o meu tempo e de outros colegas, como o de Luiz Eduardo, Jaqueline Muniz, Bárbara Soares. Isto significa, mais profundamente, que o Viva Rio sempre funcionou em diálogo estreito com a pesquisa. Por exemplo, quanto ao problema das armas de fogo, o ISER e o Viva Rio tornaram-se, com o tempo, as principais referências de informação qualificada no país, não só quanto ao impacto humano da violência armada, como nos próprios aspectos técnicos do registro das armas.

Os sucessos da Campanha do Desarmamento, portanto, não resultaram apenas das campanhas publicitárias e de eventos espetaculares (como a destruição de 100 mil armas em frente ao Monumento dos Pracinhas, no Aterro do Flamengo), mas também de um trabalho de assessoria política (que em inglês se diz “advocacy”), solidamente apoiado em pesquisas. 

Encontramos, portanto, uma outra polaridade marcante: o ativismo de um lado e a pesquisa acadêmica de outro. Interagem intensamente, mas guardam suas diferenças quanto ao ritmo de trabalho, o perfil dos protagonistas e os critérios de validação.

Ganhando o mundo

O objeto central das preocupações, que pode ser resumido na expressão “Violência Armada”, levou o Viva Rio a agir em escala nacional e logo internacionalmente. Isto começou em 1998/99, com as campanhas pelo controle das armas de fogo, que nos levaram não apenas a Brasília, mas também ao Paraguai. O debate que resultou no Estatuto do Desarmamento em dezembro de 2003 e no recolhimento voluntário seguido de destruição de cerca de 500 mil armas em 2004/2005, cresceu em paralelo a uma mobilização internacional impulsionada pelas Conferências da ONU sobre o tráfico ilícito de armas em 2001 e 2006.

Participando desses processos, o Viva Rio acabou por formar conhecimento e relações que levaram a demandas por consultoria em países da América Latina, Caribe e África portuguesa. Do mesmo modo, outros temas associados, como crianças e jovens na violência organizada ou a reforma das instituições de segurança, crescem na região e multiplicam as teias de relacionamento entre o local e o internacional, o interno e o externo.

As Operações de Paz lideradas pela ONU criaram demanda para o Viva Rio no Haiti, por conta de supostas semelhanças entre a violência armada nos bairros pobres de Porto Príncipe e nas favelas cariocas. Na verdade, não são muitas as organizações capazes de combinar a familiaridade com os terrenos revoltos pela violência urbana armada a uma competência no campo das pesquisas e da proposição de políticas públicas. As marcas de origem, fruto de uma pequena
história bem singular, acabaram por fazer sentido em outras terras.

Assim também, com as imagens da Favela impressas neste livro. Próximas e distantes, rudes e delicadas, expressões de carinho e horror, na simplicidade das situações retratadas. Morro e asfalto se estranham em nossos dias, mas os fotógrafos rompem o medo e nos oferecem uma intimidade que faz bem ao olhar. Transformam as circunstâncias pobres e violentas da favela num ambiente que dá gosto de freqüentar. Mostram que, para além dos nobres princípios que embalam o bom trabalho, existe o sentimento indispensável de amor e prazer pela vida que vibra lá fora, do outro lado da cerca que nos protege. Não é à toa que as imagens da Rocinha e da CDD, da Maré, Alemão e Queimados, foram tão apreciadas em Nova Iorque que voltaram com o brilho do prêmio estrangeiro . Os fotógrafos do Viva Favela, treinados pela Kita e pela Sandrinha , fizeram o movimento inverso do costumeiro. Ultrapassaram a proximidade, para ganhar o mundo, sem sair do seu lugar.


* Este artigo foi publicado no livro Viva Favela, que reúne uma pequena mostra das quase 50 mil fotografias feitas pelos fotógrafos do portal Viva Favela desde 2001.

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