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Revista Veja publica informações distorcidas em matéria sobre o referendo
Josephine Bourgois - 05/10/2005

 

Com qualificativos dignos de um exercício Goebbeliano e indignos de profissionais de jornalismo, a VEJA, na sua edição de 01/10, alerta: “A pergunta que será feita no referendo é um disparate. Ela ilude o eleitor. É uma trapaça”. A verdadeira “trapaça” é a pseudo-cobertura do referendo do desarmamento pela VEJA, que já começa com um erro crasso na capa da revista, confundindo a população que deveria informar, trocando os números das opções de voto na foto da urna eletrônica. A Revista não se deu ao trabalho nem de estudar o básico que são os números do Sim e do Não no referendo e errou na capa, assim como errou – para dizer o mínimo – nos argumentos panfletários com que recheou seu libelo às armas.

 

Passando por cima do Estatuto do Desarmamento, que em seu artigo 35 já definiu a pergunta a ser feita no referendo do dia 23, a VEJA propõe uma reformulação da pergunta: “O Estado brasileiro pode tirar das pessoas o direito a comprar armas de fogo e munição?”. Já imaginou um referendo assim: “O Estado brasileiro pode tirar das pessoas o direito de andar a 250 km/hora?” ou “O Estado brasileiro pode tirar das pessoas o direito de comprar remédios de tarja preta?”? Apesar das pessoas concordarem plenamente com a proposta subjacente, a formulação deixaria a entender que está sendo cometido um abuso de autoridade e não implementada uma política de redução de dano. O discurso direitista ganharia até do código do trânsito! O mesmo com armas de fogo. Feita essa comparação, talvez apareça mais claramente a linha editorial da VEJA: é a linha da propagando eleitoral do “não” com as mesmas palavras e mesmas mentiras.

 

São inúmeras as informações comprovadamente falaciosas usadas no artigo da revista. Seria possível rebater cada uma delas. Isso foi feito durante conversas telefônicas prévias entre jornalistas da revista e especialistas da questão. Veja que coisa grave: não se trata de mera ignorância da revista a opção por publicar dados absolutamente falaciosos, eles tiveram acesso aos dados corretos, com fontes confiáveis e preferiram a má fé para enganar seus leitores.

 

Com isto em vista, decidimos apresentar ao leitor uma amostra de manipulações às quais foi submetido, para ele concluir depois sobre o conjunto da obra. Muito além do debate sobre o Sim ou Não, está em jogo o destino dos 39 mil brasileiros que perdem suas vidas anualmente para as armas de fogo e o caminho para a construção de uma sociedade menos violenta.

  

Armas do bem vs. Armas do mal

 

No inicio da matéria, a VEJA afirma: “Para funcionar, o referendo da proibição do comercio de armas no Brasil precisaria da concordância de outros paises (que vendem armas ilegalmente aos bandidos brasileiros)”. Isso seria verdade se a maior parte do armamento ilegal fosse estrangeira. Na realidade, como comprovam as pesquisas às quais a VEJA teve acesso, mas escolheu não publicar por irem de encontro aos interesses de quem defende, é a indústria nacional que abastece a criminalidade.

 

Pergunte ao músico Marcelo Yuka de que marca são as balas que se alojaram no seu corpo durante o assalto que o deixou paraplégico? Como a maioria dos 108 brasileiros mortos e 50 feridos por dia por arma de fogo, ele foi atingido por munições tupiniquins, oriundas do monopólio da CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos). A alegação segundo qual o problema vem de fora é uma tentativa para desviar a atenção do problema principal. Pesquisa da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro lançada este semana comprova que dois terços (61%) das armas apreendidas com criminosos no Rio de Janeiro nos últimos seis anos pertencem ou pertenceram aos chamados “cidadãos de bem’, sem envolvimento com o crime; 81% delas foram fabricadas no Brasil, contra apenas 19% de estrangeiras. A arma usada pelo criminoso é o revolver 38 da Taurus que ele rouba nas casas, em assaltos e furtos.

 

Experiência Internacional

 

Grande parte da argumentação da Veja, com direito a gráficos e ilustrações, consiste em afirmar que experiências internacionais de desarmamento foram fracassos e que nada tem a ver a disponibilidade de armas com os níveis de mortalidade encontrados em vários países. A revista afirma queos países que proibiram a venda de armas tiveram aumento de criminalidade e da crueldade dos bandidos”. É conhecida a feroz “crueldade” dos bandidos britânicos e australianos, países desarmados, ao contrário da meiguice dos criminosos brasileiros, países onde armas correm soltas há décadas... A procuradoria geral da Austrália já entrou em 2000 com um recurso contra um e-mail da NRA (Associação Nacional de Rifles, lobby das armas norte-americano) que divulgava os dados mentirosos hoje reproduzidos pela VEJA.

 

A experiência da Austrália, aclamada internacionalmente, comprova que a proibição votada em 1996 trouxe benefícios “dramáticos” para a segurança pública deste país, conforme informa o governo da Austrália (http://www.aic.gov.au). Estudo publicado pela Professora J.Ozanne-Smith, da Monash University (Victoria, Austrália) na revista Injury Prevention 2004;10:280–286 chegou à seguinte conclusão: “Reduções dramáticas foram alcançadas na taxa geral de mortes por arma de fogo no contexto da implementação da reforma da regulação sobre armas de fogo”. De fato, desde a aprovação da nova lei, em 1996, o número total de mortes diminuiu 43% e a taxa de homicídios por arma de fogo caiu 50%. Um habitante da Austrália corre 90 vezes menos risco de morrer num homicídio com arma de fogo do que um brasileiro. 

 

No carnaval de dados apresentados pela Veja, oriundos de fontes tão sérias quanto o “Movimento Viva Brasil” – ONG recém criada para defender os interesses da indústria de armas no referendo e que nunca realizou uma pesquisa na sua curta existência -, é importante destacar os erros mais graves. Por exemplo, desmentir a idéia que na Suíça, armas não matam. Na Suíça, quase todos os cidadãos adultos de sexo masculino são membros permanentes do exército e possuem armas de uso militar em casa. Resultado: a Suíça apresenta a segunda maior taxa de mortes por arma de fogo entre os países de alta renda e vêm em terceiro lugar no mundo depois dos Estados Unidos e Finlândia no que diz respeito a suicídios por arma de fogo (OMS, 2002). Entre 16 outros paises europeus, a Suiça apresentou a maior taxa de violência contra mulher com arma de fogo (Prof. Martin Killias).

 

De fato, o Rio Grande do Sul é um pouco a Suíça do Brasil: lá tem muitas armas e poucos homicídios. Porem, é o estado brasileiro com maior taxa de suicídio e taxa de suicídio por arma de fogo (Datasus, 2002). Nesse contextos, onde o controle social e o desenvolvimento permitiram conter a criminalidade, o fácil acesso às armas se traduz em taxas elevadas de homicídios inter-pessoais , acidentes e suicídios.

 

Desarmamento de Ditaduras

 

Por último, a VEJA comete um crime intelectual quando afirma: “A historia mostra que restringir o acesso da população às armas é uma das primeiras medidas de qualquer regime totalitário. Hitler (...) está entre os que proibiram o povo de possuir armas”. Manipulando a História mundial, os defensores das armas querem vender a idéia de que o desarmamento é uma medida ditatorial, preâmbulo dos maiores genocídios! Se tivesse aberto um livro qualquer de história ao invés de confiar em emails apócrifos que circulam na internet, a VEJA não teria publicado esse absurdo. Ou será que decidiu deliberadamente publicar um fato desmascarado como sendo uma das mais perniciosas mentiras usadas pelos amantes das armas?

 

Dizer que Hitler desarmou a Alemanha para instaurar uma ditadura responsável pelo maior genocídio de todos os tempos é proferir mentira.  Na Alemanha, a lei de controle de armas  (Waffengesetz) entrou em vigor em 1928 sob o regime da jovem e vulnerável República de Weimar. A lei visava especificamente desarmar as recém-formadas milícias privadas, isto é, os exércitos Nazistas conhecidos como “camisas pardas”. O controle de armas na Alemanha não foi implementado pelos Nazistas, bem pelo contrário, foi concebido contra eles, a fim de preservar o estado de direito.

 

Pode-se dizer que a lei foi bem sucedida: em 1933, os nazistas chegaram ao poder pelas urnas e não pelas armas. Em 11 de novembro de 1938, o III Reich promulgou outra lei, desta vez para servir aos interesses do Hitler, proibindo que judeus alemães comprassem armas. Como explica o jornalista Marcos Rolim em artigo sobre o tema: “Esta lei surgiu dentro de uma política amplamente favorável ao uso de armas pelos "cidadãos alemães de bem". (...)  Qual foi, então, a política nazista para as armas de fogo? A de que elas deveriam ser consideradas um direito dos ‘cidadãos alemães, ordeiros e cumpridores da lei’. Já os ‘bandidos comunistas e os capitalistas judeus’ não poderiam ter armas. Então, ironicamente, a posição de Hitler quanto às armas de fogo era, na verdade, muito mais próxima daquela sustentada hoje pelo lobby das armas.” E a partir desta semana, pela revista Veja.

 

Aqui foram expostas algumas das inverdades veiculadas pela revista. Ameaçando o direito à informação de todos os cidadãos brasileiros que vão participar do primeiro referendo da história do Brasil, a VEJA deu um tiro no espírito democrático encarnado por essa eleição.

 

Todos os pesquisadores e especialistas em segurança pública no Brasil estão do lado do SIM; os Comandantes das Polícias mais importantes do País também. Assim como estão do lado do desarmamento os prinicipais sindicatos, movimentos sociais, ongs contra a violência e representantes de todas as religiões. Estas pessoas optam pelo SIM pois reduzir o número de armas em circulação reduzirá as mortes em nosso país. Aliás, segundo o SUS e a UNESCO, em pesquisas recém publicadas, só o Estatuto do Desarmamento, em seu primeiro ano (2004), já ajudou a reduzir em 8,2% o número de mortes por armas de fogo em nosso país. Foram 3.234 vidas salvas apenas em um ano, revertendo uma tendência de 13 anos consecutivos de aumento das mortes com armas em nosso país. Veja também considerou esta informação pouco importante.

 

Não é por interesse financeiro nem por aversão irracional às armas que quem trabalha contra a violência vota SIM. É porque são pessoas bem informadas. Faça o mesmo.

 

 



 

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