NAIDI: o desenvolvimento infantil levado a sério

“Eu não fazia ideia de como meu filho poderia trabalhar a sua deficiência até conhecer o NAIDI”. O depoimento de Elisangela de Souza, mãe do pequeno Rodrigo, de 2 anos, que trata a paralisia cerebral há três meses no Núcleo de Atenção Interdisciplinar do Desenvolvimento Infantil, da unidade de saúde Maria Cristina Paugartten, no bairro de Ramos, é ilustrativo. A unidade, administrada pelo Viva Rio em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, mudou a vida de mais uma família.

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Rodrigo na companhia de sua mãe, Elisabete (esq.): a família participa de todo o tratamento no NAIDI

Rodrigo adquiriu a deficiência com apenas oito meses. No começo, foi um baque para a mãe que, separada do pai do pequeno, teve que cuidar da criança sozinha. Em poucos meses de tratamento, algumas melhorias foram notadas, principalmente na resposta a estímulos sonoros e enrijecimento muscular.

Enquanto a mãe contava com orgulho e lágrimas nos olhos os progressos do filho, o pequeno Rodrigo esteve atento a tudo que acontecia ao redor, o que antes era impossível. “No início, foi muito difícil. Me senti um pouco perdida por não saber o que fazer até me indicarem o núcleo. Antes meu filho não emitia sequer uma palavra, vivia deitado como um boneco. Agora, senta, faz barulhos e responde aos estímulos musicais. Tenho certeza que, dentro de algum tempo, ele estará andando”.

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Rodrigo durante exercício de resposta a estímulos externos com a fisioterapeuta

Rodrigo, assim como as demais crianças, recebe atendimento individualizado com o apoio de uma fonoaudióloga e uma fisioterapeuta, tudo para que a criança passe por um processo menos estressante possível. Os familiares também são orientados a realizar alguns procedimentos em casa como forma de complementar o tratamento.

O menino faz parte das estatísticas levantadas pelo coordenador do programa na unidade e atual coordenador de Reabilitação da Coordenadoria de Área Programática (CAP) 3.1, Ronaldo Caloiero. No último ano, 4.677 atendimentos foram prestados pelo Núcleo de Atenção Interdisciplinar do Desenvolvimento Infantil.

O núcleo foi levado para a unidade, em 2002, sob a supervisão de Ronaldo que desde 1994 já comandava o programa “Reabilitação”. Sob essa nomenclatura, a unidade mantém o programa infanto-juvenil e adulto. Juntos, os dois núcleos já atenderam 10.213 pessoas no último ano.

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Ronaldo acredita que o tratamento individualizado pode otimizar o processo de melhoria

No Reabilitação Adulto, 70% dos atendimentos são para mulheres. Para Ronaldo, isso é resultado de um quantitativo maior de mulheres no estado – 52% – e do fato de elas buscarem com mais facilidade o tratamento. “Temos muitos pacientes na idade adulta, onde a mulher apenas cuida do lar e o marido trabalha fora, então ela acaba tendo mais tempo para se tratar. Nas demais idades há um equilíbrio. Esse é um aspecto que daqui a 15 anos deve estar mudando”.

Ao todo, 27 profissionais, entre fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos, terapeutas ocupacionais e administrativos, atendem uma região que se estende de Manguinhos até Parada de Lucas, pegando todo o Complexo da Maré e Alemão. “São mais de 1,3 milhão de moradores para poucos profissionais. Temos uma demanda aguardando que é extremamente grande, tentamos atender o máximo de pessoas, mas temos um déficit de pessoal muito grande”, explicou Ronaldo.

No município existem somente quatro NAIDIs e a proposta de Ronaldo é aumentar esse quantitativo, criando centros de referência para o tratamento de deficiências.  “Observei que temos vários profissionais da reabilitação meio soltos em outros locais, não tem um centro. A minha ideia é pegar esses profissionais e colocar em dois centros – Penha e Ramos. Também estamos negociando a criação de um centro na Maré”.

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Sessão de fisioterapia no núcleo de adultos do programa Reabilitação, realizado desde 1994 na unidade

Os pacientes adultos e infanto-juvenis são encaminhados por médicos do Saúde da Família, do Hospital Geral de Bonsucesso, Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF/UFRJ), Getúlio Vargas ou de Clinicas e hospitais particulares. Os encaminhamentos para o NAIDI são feitos pelos médicos referenciados ou por demanda espontânea da família ou escola. “Atualmente, mais de 80% dos atendidos pelo núcleo são deficientes”.

Breve histórico do trabalho da unidade
O trabalho com deficientes começou na década de 80 pelo pediatra Brivaldo de Queiroz quando assumiu a direção da unidade de saúde Maria Cristina Paugartten, em Ramos. Com os recursos obtidos do governo, o médico construiu o programa de atendimento a deficiente para adultos e crianças. Brivaldo ficou a frente da unidade por 17 anos.

“Antigamente, as direções eram feitas por médicos que não conheciam o trabalho da reabilitação e outros que nem se importavam. A nossa sorte é que nosso diretor conhecia e foi buscar onde ninguém buscava e conseguiu captar os recursos”, contou Ronaldo Caloiero. De acordo com ele, a postura mudou, pois há o reconhecimento da necessidade e importância do programa.

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As mulheres representam 70% dos atendimentos no núcleo de adultos, que já somam mais de 6 mil

Ronaldo informou que o aumento na procura dos serviços do Reabilitação e NAIDI se deve ao Programa Saúde da Família, “que facilitou o acesso aos serviços de saúde, principalmente para as pessoas mais necessitadas”.

O Núcleo de Atenção Interdisciplinar do Desenvolvimento Infantil foi um dos programas apresentados durante o “1º Fórum Viva Rio Eficiente – Boas Práticas no Atendimento de Pessoas com Deficiências (PCDs) e Usuários Especiais”, que aconteceu este mês, na sede do Viva Rio.

(Texto: Flávia Ferreira| Foto: Roberta Machado)

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