Mariam Yazdani e a inclusão das mulheres nos processos de mediação de paz

Mariam Yazdani trabalha desde 2011 como consultora-sênior do Viva Rio no Haiti, atuando em comunidades pobres que enfrentam diariamente situações de violência. Em 2018, ela se tornou “Women PeaceMakers Fellow” da Joan B. Kroc School de Estudos de Paz, instituição vinculada à Universidade de San Diego que prepara seus alunos para promover a paz e combater as desigualdades.

Mariam esteve no Brasil em janeiro de 2019 e aproveitamos a oportunidade para conversar sobre sua atuação no Haiti e a inclusão das mulheres nos processos de mediação de paz.

Viva Rio: Como começou sua atuação na área de mediação de conflitos e, mais especificamente, com o Viva Rio?

Mariam: Eu trabalho há 15 anos em negociações pós-conflitos. Fui para o Haiti com a ONU e trabalhei em um programa chamado “Second Generation DDR” com a Minustah. Lá encontrei um ambiente muito fértil e interessante para colaborar e comecei a trabalhar para o Viva Rio em 2011. No Viva Rio o foco do nosso trabalho é instigar e promover a mediação de paz dentro das comunidades. Fazemos mediação com as gangues, com a polícia, com as comunidades todos os dias.

 

VR: E o que você encontrou de diferente no Haiti?

Mariam: Penso que existem três fatores que tornam o meu trabalho no Haiti diferente das minhas experiências prévias: 1) quando cheguei, a polícia estava num momento de se reconstruir, de promover uma nova imagem; 2) o Estado haitiano carece de uma boa organização, sobretudo na área de segurança pública, mas o país é muito organizado no âmbito das comunidades, então boa parte das mediações acontece nesse nível local; 3) a grande diferença da atuação do Viva Rio foi combinar a mediação com benefícios trazidos pela paz. E esses benefícios vêm na forma de educação, esportes, cultura e assim por diante. Outras organizações que também desenvolvem o trabalho de mediação de paz tendem a trabalhar com a ideia de que elas chegarão, realizarão uma reunião e resolverão a situação, sem de fato entender o problema. Nós preferimos investir nas relações, garantindo um trabalho mais contínuo e duradouro. Eu sou a pessoa mais nova na equipe sênior do Viva Rio Haiti e já estou lá há 8 anos, então realmente são relações duradouras e mais profundas.

 

VR: E como funciona esse trabalho de mediação de paz em espaços informais?

Mariam: As redes informais conseguem ter circulação no cotidiano, no nível das comunidades, mas também têm entrada nas elites políticas e econômicas do país, por isso são tão importantes. Nós investimos muito no mapeamento das redes de poder informais que existem no Haiti. Eu estou mais envolvida no nível macro, lidando diretamente com o aspecto mais político. Mas tenho parceiros de trabalho que atuam diretamente no trabalho de base e é um trabalho muito valioso, temos toda uma rede de contatos e de recursos que circulam no âmbito informal e que consideramos merecer toda a nossa atenção. A partir disso, nós definimos quem deve estar em cada mesa de negociação e com que objetivo. Essa pessoa pode vir da Federação de Futebol, pode vir de um banco, pode ser da Justiça haitiana… Ao mesmo tempo em que acontece a negociação formal, temos que ter um paralelo na mesa de negociação informal.

 

VR: Você está participando de um Fellowship da Joan B. Kroc School de Estudos de Paz para mulheres engajadas na construção da paz. Como tem sido esse programa?

Mariam: A Joan B. Kroc School, vinculada à Universidade de San Diego, convida anualmente quatro mulheres que estejam envolvidas no trabalho de mediação de paz para integrarem seu fellowship. O programa promove a troca de experiências e cada uma apresenta sua vivência como um estudo de caso. Tenho a oportunidade de conviver com três mulheres de lugares bem diferentes: uma colombiana, que participou das negociações de paz entre as FARC e o governo da Colômbia; uma romena, que trabalhou na mediação de paz entre Ucrânia e Rússia; e uma sudanesa, que trabalhou nos acordos de paz do Sudão.

VR: Você publicou um artigo recentemente defendendo a importância das mesas informais de negociação. Fale um pouco mais sobre essa experiência no Haiti, por favor.

Mariam: As mesas informais de negociação acontecem nos corredores, antes de chegar na mesa redonda. Para isso, fazemos um trabalho prévio de identificação dos termos dos acordos de paz e elaboramos nossas demandas. No fim das contas é impossível fechar acordos de paz formais sem que exista essa intermediação dos acordos informais. Ou seja, sem o diálogo, sem as negociações informais, o acordo é só um pedaço de papel.

 

VR: E como as mulheres podem contribuir nas negociações informais de paz?

Mariam: Mulheres são subestimadas em sua capacidade de mediação. As organizações mapeiam os conflitos e muitas vezes acreditam que a mediação tem que ser feita pelos agentes envolvidos. O problema é: essa paz não se sustenta. Então, como trabalho para conseguir isso? Incluindo todas as partes interessadas. Por isso as mulheres precisam ser incluídas, elas trazem novas perspectivas e precisam ter esse acesso garantido. Devemos parar de subestimar o papel político das mulheres. Como a maioria das pessoas que começam a vida em uma situação de desigualdade, estamos constantemente negociando nosso espaço. E desde que a gente aprende a negociar nosso espaço, também passamos a aprender como negociar os espaços dos outros. Mulheres são melhores mediadoras, nós mediamos naturalmente. Nós mediamos com nossos filhos, mediamos em casa.

Acredito que a mentoria é muito importante para o desenvolvimento da capacidade de mediar. Para mediar você precisa entender as pessoas e precisa entender sobre você mesmo. Ter a coragem moral de saber qual conversa você pode mediar, participar, quando é melhor se retirar, quando devo encaminhar para outra pessoa da minha equipe.

 

VR: Mas como incluir as mulheres no modelo informal de negociação de paz? No formal é possível estabelecer regras e delimitações que obrigam a presença delas, por exemplo.

Mariam: É importante dar a possibilidade das mulheres trabalharem nessa mediação informal. Também devemos identificar quem já está em campo representando esse papel de mediação informal, sendo que essa pessoa pode vir do mundo dos esportes, da música… Na sequência nós devemos dar as melhores condições para que essas mulheres possam se envolver na mediação de paz. Aqui vale lembrar que o trabalho político é também um comprometimento financeiro, uma vez que em muitas situações você tem que deixar o seu trabalho formal e o seu tempo de trabalho vale de forma diferente. No Haiti, as mulheres estão trabalhando para prover comida, para criar seus filhos, para cuidar da casa. Portanto as mulheres são fundamentais para o desenho dos processos de paz, identificando onde o dinheiro está circulando, quais negócios funcionam. Homens são muito envolvidos com a política e negociação nas ruas, mas eles não acompanham a política doméstica e nisso eles perdem pontos fundamentais para a construção da paz.

VR: E como trabalhar para transformar jovens em lideranças para mediação de paz?

Mariam: As mulheres mudaram. Quando eu fui para o Haiti pela primeira vez, cerca de 10 anos atrás, acredito que não existiam mulheres nas gangues, ou se havia eram poucas. Agora existem as “baz madivine” grupos de lésbicas, por exemplo. É um fenômeno muito novo, a sexualidade é mais fluida para os millennials e eles estão mais dispostos a definir questões sexuais por uma outra perspectiva. Essas jovens não estão mais tradicionalmente ligadas ao lar, à figura masculina… Houve uma clara mudança e acho muito bacana trabalhar com essas jovens mulheres, identificando lideranças entre elas e dando espaço e condições para criar uma espécie de mentoria. O que faz um bom mediador? É a prática, o diálogo constante, a exposição. Dêem a elas as melhores ferramentas, exposição política e, claro, mentoria.

 

VR: E tem alguma atividade em curso no Haiti nesse momento que atua nesse sentido?

Mariam: Nós trabalhamos com uma rede de mulheres (a Rezo famn kapab d’ayiti) e damos bolsas de estudo em universidades para garotas das favelas haitianas. Ao mesmo tempo, nós damos treinamentos de liderança e media trainings para aquelas que querem se envolver no ativismo. Outro dia, por exemplo, nós demos um workshop de codificação para meninas e meninos de Bel Air e Cité Soleil, meninas que não têm eletricidade em casa, que não têm computador em casa. E em três semanas essas meninas já estavam desenvolvendo aplicativos. Atualmente temos 20 jovens mulheres acompanhadas pelo nosso programa de mentoria. Um dos objetivos da rede com que trabalhamos é também o de formar jovens mulheres que possam ocupar espaços de poder na política tradicional.

 

VR: Você tem uma última palavra para dar para gente?

Mariam: Mulheres mediadoras têm um tipo de liderança mais leve, o que é mais válido para a mediação, se bem conduzido. No passado, tivemos um problema recorrente com bons mediadores homens que passavam a se identificar como grandes líderes políticos. E aí assumiam uma postura mais agressiva e o espaço para a mediação deixava de existir. Então esse era o nosso maior problema quando trabalhávamos exclusivamente com mediadores homens. Por fim, um outro desafio que precisamos vencer é essa ideia de que as mulheres devem ter uma atuação setorizada. As pessoas em geral pensam “ah, temos um problema relacionado a mulheres, vamos chamar uma para resolver”, e quando é uma questão envolvendo política nós sempre chamamos um homem. Por que isso tem que ser assim? Mulheres têm que ser incluídas em todos os lugares e em todos os assuntos.

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