Loucura na Roda rima com vida e arte

Roda de Samba, oficinas de arte, brincadeiras, varal de poesia e desfiles de moda rimam com loucura? A resposta é sim, principalmente para os profissionais da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), responsáveis pela Agenda Loucura na Roda –  intervenções Dia Nacional da Luta Antimanicomial, que comemora a data com 17 eventos culturais espalhados pela cidade.

Serviços de atenção psicossocial e de atenção primária co-geridos pelo Viva Rio também participam da festa.

“A ideia é colocar a loucura em pauta em oposição ao manicômio, com uma programação de vida e arte”, esclarece Pollyana Ferrari, assessora técnica de Geração de Trabalho, Renda e Cultura da Superintendência de Saúde Mental, da SMS.

Segundo Pollyanna, a secretaria organizou três grandes eventos em 2015, mas esse ano a opção foi uma intensa agenda cultural, iniciada na quinta-feira (12), que termina no domingo 22 de maio, com uma farta programação no Meier, na zona Norte, promovida pelo Centro de Convivência e Cultura Trilhos do Engenho.

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Evento com as Casas Vivas realizado no Largo do Machado em 2015| Foto: Vitor Madeira

Origens do movimento

No 18 de maio de 1987, cansados do tratamento desumano e cruel dado a usuários do sistema de saúde mental, profissionais do setor organizaram o primeiro manifesto público a favor da extinção dos manicômios, no II Congresso Nacional de Trabalhadores da Saúde Mental, em Bauru (SP). Foi ali que nasceu no Brasil o Movimento Antimanicomial.

O movimento defende os direitos das pessoas com sofrimento mental e combate a idéia de isolá-las em nome de pretensos tratamentos. Para seus integrantes, estas pessoas têm o direito fundamental à liberdade, a viver em sociedade e a receber cuidado e tratamento como todo cidadão, sem que para isto tenham que abrir mão de sua cidadania.

O objetivo tem trazido resultados significativos. Conforme dados da Coordenação Nacional de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas, do Ministério da Saúde, os 51.393 pacientes internados em 2002 foram reduzidos para 29.958 em 2012. Na contramão, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), que acolhem este tipo de público, subiram de 424 unidades para 1.981 neste mesmo período.

A meta do movimento, portanto, é a substituição progressiva dos hospitais psiquiátricos tradicionais por serviços de tratamento abertos, formas de atenção dignas e diversificadas, que atendam aos diferentes momentos em que o sofrimento mental surge e se manifesta.

Franco Basaglia

A hoje entendida como reforma psiquiátrica brasileira questiona o modelo de asilos, onde a maioria dos doentes mentais era abandonada e terminava por morrer, pelo esforço de promoção de cidadania de sujeitos que antes eram isolados da sociedade. A reforma se fortaleceu na segunda metade da década de 70, inspirada sobretudo na reforma italiana promovida pelo psiquiatra Franco Basaglia (1924-1980). Foi dele a iniciativa de fechar o Hospital de Trieste, na Itália, para substituir o tratamento manicomial por uma rede de atendimento. Em 1973 a ONU credenciou a unidade como principal referência mundial para a assistência à saúde mental.

Basaglia

O médico psiquiatra italiano Franco Basaglia|Foto Wikipidia

(Texto: Celina Côrtes|Fotos: Vitor Madeira e Wikipidia)

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