Jovens da Casa Viva lançam seus livros na Flup

Hillary tem o mesmo nome da mulher que quase foi presidente dos Estados Unidos. A diferença entre ambas, porém, é abissal. Aos 15 anos, ela está entre os 18 novos autores que lançaram  nesta quarta-feira (09) seus livros na Festa Literária das Periferias pela (Flup), pela parceria entre o Viva Rio, a secretaria municipal de Desenvolvimento Social e a editora Navegar. A Flup acontece no Ciep João Batista dos Santos, na Cidade de Deus, em Jacarepaguá, zona Oeste.

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Responsáveis explicam o projeto iniciado com oficinas de criação| Foto: Paulo Barros

Apenas poucos autores, todos das Casas Vivas – especializadas em acolher jovens que fazem uso abusivo de drogas, especialmente crack – compareceram ao lançamento. Os adjetivos que usaram para descrever a inusitada sensação de escrever um livro foi de “loucura” a “emoção”, como se custassem a crer que fosse verdade.

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Os jovens autores ficaram encantados ao ver seus livros pela primeira vez | Foto: Paulo Barros

“Por trás disso há uma gestão de política pública, priorizamos aquilo que possa fazer a diferença na vida das pessoas e essa é uma aposta. Temos a esperança que as raízes das Casas Vivas possam superar essas transições”, ponderou emocionado o secretário de Desenvolvimento Social, Rodrigo Abel.

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Abel explica que a prefeitura priorizou “o que pode mudar a vida das pessoas” | Foto: Paulo Barros

Nascida em Manaus, colorido e traços marcantes – “magnética, segundo os que lidam com ela -, Hillary, 15 anos, começa seu livro contando que a mãe largou a família quando ela tinha três anos. O rigor do pai a levou à casa de uma tia e depois da avó paterna, tão liberal que foi incapaz de conter a iniciação da neta na maconha, cheirinho da loló e crack. “Queria fazer enfermagem, mas a droga ainda me domina”, provoca, orgulhosa com sua “obra”.

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Hillary não conseguia disfarçar o orgulho por lançar seu próprio livro | Foto: Paulo Barros

Entre uma maioria de mulheres, claro que não poderiam ser histórias alegres. Afinal, todos têm em comum dramas familiares que acabaram por levá-los às drogas e muito sofrimento. Mas há exceções, como a de Daniel Moreira Campos, autor de Se eu pudesse escrever no céu, que já consegui voltar para a casa da família depois de uma temporada na Casa Viva de Del Castilho. Nem foi ao lançamento. “Se eu pudesse escrever no céu/como escrever na areia/escreveria seu nome/que corre no sangue da minha veia“.

A ideia começou a partir das oficinas comandadas pelo escritor Márcio Vassalo, que levou a proposta ao Viva Rio e à prefeitura. “O objetivo era que esses jovens escrevessem livros a partir de oficinas para despertar a criatividade. Os livros ficaram lindos e provam o quanto eles são capazes de imaginar poesia no improvável por conta própria”, argumentou.

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Vassalo despertou a criatividade nos jovens | Foto: Paulo Barros

Outro autor que já voltou para a família, este presente ao lançamento, considerou o livro “uma experiência emocionante”. Nascido em Campos, Luiz Renato Abreu dos Santos foi para no abrigo aos 15 anos, “por coisas erradas”, resumiu, referindo-se ao uso de drogas. Chegou nas Casas Vivas através do abrigo e agora, aos 18, planeja trabalhar como bombeiro. Destino imprevisível para quem escreveu “Sou um menino maluquinho. Sou todo errado. Visto sapato na mão (…) tenho vontade de ficar cheirando no ar, de pegar peso até cansar, de contar ausência. Só doideira.”

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Autor de “Só doideira”, Luiz Renato dos Santos que ser bombeiro | Foto: Paulo Barros

(Texto: Celina Côrtes| Fotos: Paulo Barros)

 

 

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