Conferência discute Casas Vivas

A projeção dos resultados das Casas Vivas pelo subsecretário de Proteção Social Especial da Secretaria municipal de Desenvolvimento Social (SMDS) do Rio de Janeiro, Rodrigo Abel, foi o ponto alto da abertura da 1ª Conferência das Casas Vivas, um novo olhar sobre um velho tema, iniciada na manhã de sexta-feira (26), na Biblioteca Parque Estadual, no Centro. Em dois anos, foram acolhidos 316 adolescentes, 100% deles atendidos pela rede de atenção básica de saúde mental e 86% inseridos na rede regular de ensino.

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Rodrigo Abel projetou lâminas com os resultados positivos das Casas Vivas

 

E mais: 82% se dizem satisfeitos com o programa e 53% sentiram forte vinculação com a casa. “O projeto não é feito de números, mas de gente”, completou Abel, que falou ainda do processo de resignificação da moeda, adotado pelas Casas Vivas. “Temos um caixinha e são eles (os jovens acolhidos) que decidem como o dinheiro será gasto”. Segundo explicou, antes, para eles, ele “só servia para comprar drogas”.

Conforme os dados, de cada 14 acolhidos, nove permanecem, dois se mantêm em processo de idas e vindas e três evadem sem retornar. Na pesquisa de percepção, 77% relatam ter uma relação mais positiva e mais saudável com as drogas, o que permite a permanência nas Casas e demonstra o sucesso da política de redução de danos (que não prevê a abstinência). Nesses dois anos, 20 adolescentes atingiram todas as metas de sucesso, inserindo-se no mercado de trabalho, continuando a rotina de ensino e reconquistando vínculo familiar ou conquistando a própria autonomia.

A apresentação de Abel culminou com a presença de três jovens participantes, casos de sucesso do projeto. Dois – como 90% do público do projeto, que não tem a figura paterna – sem pai nem mãe. “Tou bem, tou suado, trabalhando”, declarou um deles, sob calorosos aplausos do público presente – cerca de 200 pessoas. Setenta e sete por cento dos acolhidos estão abaixo da linha de pobreza e 100% estavam fora da escola antes de ser acolhido no Projeto Casa Viva.

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Tião Santos citou a importância do olhar de generosidade e amor do trabalho com o programa

 

Na abertura do evento, o coordenador do Viva Rio, Tião Santos, lembrou que nenhum projeto teria sucesso se não fosse “o olhar de generosidade e amor” dos que trabalham nas Casas Vivas. Preto Zezé, presidente da Centra Única de Favelas (Cufa), lembrou que o que se vê no país é transformar a questão dos jovens que fazem uso abusivo de drogas em “problema de polícia”. Para o vice-presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Valcler Rangel Fernandes, “a sociedade está sendo colocada contra a parede com a agenda reacionária”.

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Preto Zezé, ao lado de Rubem César, lamentou que a questão das drogas seja tratada como “de polícia”

O diretor executivo do Viva Rio, Rubem César Fernandes, lembrou que a ideia de cogestão (entre o serviço público e a sociedade civil) pode agregar agilidade, eficiência e capacidade de inovar, “só falta expandir”. Depois de elogiar a experiência, o secretário nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD), Vítore André Zílio Maximiano, lembrou que o acolhimento para grávidas que fazem uso abusivo de crack será criado no Rio e também deve ser levado para o resto do país.

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Segundo Vítore André Zílio Maximiano, será criado no Rio o acolhimento para grávidas que fazem uso abusivo de crack

 

O deputado estadual e ex-delegado Zaqueu Teixeira surpreendeu os presentes ao comparar os investimentos feitos em segurança pública e assistência social e falou da importância do projeto Casas Vivas “que atende como se uma família fosse”. Para ele, quando um jovem se sente em casa, ele se identifica e é isso que o faz permanecer. E sugeriu: “A experiência deve ser potencializada pelo Brasil”.

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Zaqueu Teixeira, ao lado de Rodrigo Abel, comparou os recursos investidos em Segurança Pública e Assistência Social

 

“Pretos, pobres e favelados”

O juiz titular da Vara de Infância e Juventude do Rio de Janeiro, Pedro Henrique Alves,  arrancou aplausos em alguns momentos da Mesa 1, especialmente ao afirmar que a lei é extremamente excludente e injusta, feita para prender “pretos, pobres e favelados”. Para ele, é preciso criar um fórum de discussão sobre a Educação, “capaz de mudar a realidade da sociedade”.

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O juiz Pedro Henrique Alves arrancou aplausos ao dizer que só vão para a prisão pretos, pobres e favelados

 

Durante a Painel I, Vítore Maximiano citou vários números de pesquisas realizadas pelo governo federal realizados em 2005 e 2010. Na comparação entre dois levantamentos feitos entre os alunos dos ensinos médio e fundamental, houve uma redução no consumo de álcool, nicotina e maconha, e um pequeno acréscimo no uso de cocaína pelos estudantes.

Outro indicador, realizado em parceria com a Fiocruz, estimou que são 32  mil usuários de crack no país, sendo sete mil em cenas de rua. “São 14% menores de 18 anos, o que revela o universo a ser trabalhado”, frisou Maximiano. A mesma pesquisa revelou que 79% dos entrevistados manifestou desejo de ingressar em um programa de recuperação. “Cabe a nós oferecer esta rede de cuidados, com parâmetros e protocolos”, acrescentou. Desta população, 8,8% fizeram uso de maconha, percentual que sobe para 23,5 em países europeus, sendo 40% na Espanha e quase 50% nos Estados Unidos.

O representante do SENAD questionou: “Por que nesses países o impacto da violência é infinitamente menor do que o nosso? Aqui, além de o acesso ser ligado à vulnerabilidade social, o que predomina é uma ausência de políticas sociais para os que fazem uso abusivo de drogas”, lamentou, lembrando ainda que 40% dos usuários de crack nas capitais estão em situação de rua.

Desafios

No Painel II, realizado durante a tarde, que lotou o Salão Pablo e Ana, no Viva Rio, Rubem César Fernandes enumerou os principais desafios enfrentados pelo programa Casas Vivas. O primeiro é a colaboração entre áreas distintas, como Saúde e Assistência Social. “Não é fácil combinar, são tribos diferentes que falam línguas distintas, com referências diversas do passado”, argumentou. “O lado da saúde mental tem um peso mais subjetivo, são tempos de trabalho que exigem atitudes de relacionamento. É preciso gerar conhecimento sobre tudo isso, porque são experimentos”, propôs.

O segundo desafio é falar com adolescentes. “Um embrulho”, brincou. “Em geral, quem trabalha com drogas evita os adolescentes”, disse, e começou a enumerar suas experiências nesta etapa da vida: “Aos 13 tive minha primeira experiência sexual, inesquecível. O primeiro cigarro foi aos 15, até os 45 anos. Maconha veio mais tarde e no Carnaval tinha de ter lança-perfume. Tudo isso experimentei na adolescência”, e apontou a incoerência das regras legais ao estabelecer os 18 anos como uma porta para a liberdade. “É uma farsa legalizada. Como lidar com a liberdade se ela não é consentida?”, questionou.

A terceira dificuldade é trabalhar com a população em situação de rua e lembrou  quando foi aberto o CAPs AD. “Os caras invadiram, eram ciganas, matadores, donos das ruas, um desafio muito grande”. Por estas e outras questões alegadas, admitiu: “Os profissionais que lidam com o povo de rua têm de ter um coração forte, é um regime de trabalho complicado, requer uma estratégia de cuidado para esses profissionais”, concluiu.

Rubem César falou após as reflexões de Leon Garcia, diretor de Articulação e Coordenação de Políticas sobre Drogas, do ativista social e cultural Preto Zezé e do superintendente de Saúde Mental da SMS do Rio de Janeiro,  Hugo Fagundes.

(Texto: Celina Côrtes| Fotos: Paulo Barros)

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