Acolhimento amoroso é receita para reintegração

O acolhimento amoroso, que garanta a reinserção com a família, dentro da lógica da redução de danos, é o fio condutor das Casas Vivas, conforme explicou em sua palestra para o curso de Terapia Ocupacional em Saúde Mental o coordenador da unidade de Bangu, o psicólogo Lucas Veiga, na tarde de sexta-feira (29), no Instituto Federal Rio de Janeiro (IFRJ), em Realengo, na zona Oeste.

Lucas Veiga

Lucas Veiga falou dos adolescentes e do público específico das Casas Vivas | Foto: Paulo Barros

Especializado no acolhimento de jovens de 12 a 17 anos que fazem uso abusivo de drogas, principalmente de crack, o projeto Casas Vivas foi criado em 2008 pela prefeitura do Rio de Janeiro. O Viva Rio faz a co-gestão de cinco unidades (Bonsucesso, Penha, Jacarepaguá e Del Castilho, além de Bangu).

Os adolescentes chegam à Casa Viva encaminhados, em sua maioria, pelos Conselhos Tutelares e Centrais de Recepção. São acolhidos pela equipe que inicia, em parceria com os serviços de saúde mental do território, com a educação e com o Centro de Referência Especial em Assistência Social (CREAS) um minucioso trabalho na direção do cuidado e da garantia de direitos. Os principais objetivos são a reinserção familiar, a produção de autonomia e a criação de relações outras com as drogas, levando-os a um uso menos abusivo.

Neste momento de acirramento da violência, muitas vezes atribuída ao tráfico de drogas, as cerca de 30 pessoas que acompanharam a palestra, na maioria alunos do curso de Terapia Ocupacional em Saúde Mental 2, do IFRJ, saíram impressionadas com o que ouviram. “O que acontece nas Casas Vivas tem ligação com a reforma psiquiátrica, que trabalha com o cuidado”, observou a professora Roberta Pereira Furtado da Rosa.

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As professoras Gerusa Valadares Souza e Roberta Pereira da Rosa | Foto: Paulo Barros

Igualmente entusiasmada com a experiência das Casas Vivas, a professora e organizadora do evento, Geruza Valadares Souza, participa do projeto com uma oficina para pensar arte, cultura e lazer, “para potencializar o acolhimento”.

Entender para lidar

Após a palestra da coordenadora do CAPS i João de Barro, Alda Cardozo – que analisou a oferta aos jovens de cultura, lazer e arte, além da medicalização – Lucas começou sua palestra traçando um perfil dos adolescentes. “Primeiro é preciso entender o que se passa com eles para melhor lidar com este público”, sublinhou.

Alda Cardozo

A psicológa Alda Cardozo, coordenadora do CAPS i João de Barro | Foto: Paulo Barros

A adolescência é a mais delicada fase de transição na vida de um sujeito. O adolescente se distancia do mundo de sua infância, em que era conduzido por seus pais ou responsáveis. Este mundo começa a desmoronar e só será reconstruído na idade adulta e o adolescente se depara com uma enorme sensação de vazio. Para lidar com esse vazio, cada um cria estratégias como dedicar-se obsessivamente aos estudos, se tornar pai/mãe para encurtar o caminho para a vida adulta, afastar-se da realidade através de jogos de computador e das redes sociais, fugir de casa, usar drogas e colocar-se em risco, entre muitas outras. “Essas estratégias são tentativas desajeitadas de se situar no mundo, de encontrar sentido para sua existência”, explicou Lucas.

Alguns se dedicam obsessivamente aos estudos, outros viram pais e mães precoces para buscar seu lugar no mundo. Outros fogem de casa e acabam em situação de rua, quando encontram as drogas. As estatísticas ajudam a compreender essa sequência: 50% dos homicídios ocorrem com jovens, 77% deles, negros. “Eles não querem morrer, mas viver melhor, embora vivam em constante diálogo com a morte ao ultrapassar os limites impostos pela sociedade”, esclareceu o psicólogo.

Em relação ao público específico das Casas Vivas, segundo Lucas, são jovens que vivem em locais com alto grau de violência, dominados pelo tráfico ou pelas milícias, sem saneamento básico. “A privação emocional e material é a principal causa da conduta de risco em que estes adolescentes se colocam, seja o uso abusivo de drogas ou a prática de furto.”

“A lógica do cuidado é a redução de danos, não a abstinência. Cuidar de usuários de drogas não é proibir o uso da droga, que na realidade funciona como um redutor de danos para a privação emocional e material pela eles passam. Os adolescentes buscam um lugar no mundo, sentir que têm algum valor e é nosso papel construir com eles essa experiência”, ensinou Lucas Veiga. O cuidado com usuários de drogas na perspectiva da redução de danos vai de encontro ao pensamento do filósofo francês Gilles Deleuze, escrito por Lucas no quadro negro da sala: “Salvá-los não é livrá-los das drogas, mas impedi-los de virar trapo”.”

 

(Texto: Celina Côrtes|Foto: Paulo Barros)

 

 

 

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